domingo, 11 de novembro de 2007

O Brasil de Monteiro Lobato- Curso na UFPR


A aluna Fabianada Cunha Medeiros, do curso de Letras da UFPR, está criando um núcleo de estudos sobre Literatura Infantil naquela universidade. Deve-se louvar a atitude dessa estudante que, percebendo a grande lacuna existente nesse campo, em Curitiba, tomou para si a iniciativa.
Para iniciar o núcleo, promoveu um evento, no qual três professores falarão sobre Lobato, abordando ângulos diferentes. Ontem, 10 de outubro, tive o privilégio de iniciar o ciclo, com uma abordagem sobre o Brasil que se caracteriza na obra de Lobato. Analisei o artigo A velha praga, o conto Urupês e depois as obras infantis, que não são traduções ou adaptações. As obras didáticas também estiveram em pauta, embora vistas rapidamente.
Falamos bastante sobre a questão do petróleo, tão defendida por Lobato, de atualidade ímpar, se compararmos trechos de seu livro "O escândalo do petróleo e do ferro" com as notícias de hoje. Vejamos:
Em O escândalo do petróleo...: "País possuidor desse precioso combustível verá os milhões possuídos pelo resto do mundo afluirem para seus cofres.(...) O país que dominar pelo petróleo dominará também o comércio do mundo. Exércitos , marinhas, dinheiro e mesmo populações inteiras de nada valerão diante da falta de petróleo.(...) dada a sua área, a quantidade de petróleo no Brasil talvez seja maior que a de qualquer outro país mo mundo"(p.10)
No livro " O poço do Visconde" : " Então, por que não se perfura no Brasil? Porque as companhias estrangeiras que nos vendem petróleo não têm interesse nisso. e como não têm interesse nisso, foram convencendo o brasileiro de que aqui, neste enorme território, não havia petróleo. e os brasileiros bobamente se deixaram convencer...(p.26)
Notícia em Folha de São Paulo, hoje, 11 de novembro, sobre a descoberta de um campo de petróleo que pode aumentar em 50% as reservas nacionais: "Uma geração de brasileiros formou-se na teoria da conspiração segundo a qual o país boiava em petróleo, mas os trustes americanos e uma "camorra geológica" nativa escondiam-no. As peças mais venenosas dessa mitologia foram dois livros de Monteiro Lobato, "O escândalo do petróleo" e "O poço do Visconde", escrito para crianças em 1937. Nesse, para horror dos trustes, a turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo fura o poço Caraminguá 1 e consegue uma produção de 500 barris diários."(Folha de São Paulo, 11/11/07, p.A14) Elio Gaspari continua seu texto discorrendo sobre os outros vários brasileiros que afirmaram a existência de petróleo no Brasil e que foram"varridos para baixo do tapete".
Apesar das palavras um tanto agressivas, como "peças mais venenosas dessa mitologia", parece impossível negar a antecipadora percepção de Lobato e não se deve esquecer o quanto ele lutou para que houvesse exploração de petróleo no Brasil. Se o tivessem ouvido, lá na década de trinta do século XX, talvez "A miséria tanta de certas zonas, em que a grande massa da população rural já está perdendo a forma"(p.11) ou talvez a situação de miséria crônica que se vê em certas regiões brasileiras, como o Nordeste, não existissem.... Se não tivesse sido preso, exilado, por suas palavras contundentes contra o governo , talvez hoje o Sítio do Pica-Pau Amarelo não exitisse só na tenebrosa versão global.....

É sempre um prazer falar em Lobato. Só acho que se fala mais sobre ele do que são lidas as suas obras. É uma pena. Foi um grande homem, um grande brasileiro, um grande escritor!

Um comentário:

antenor disse...

tive a oportunidade e o privilégio de estar presente neste " Brasil de Monteiro Lobato ". Um dos cânones da nossa literatura, foi debatido e discutido de forma tão envolvente, que fui em busca de livros de sua autoria para relembrar essa leitura tão deliciosa.