terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crônica de Roberto Gomes


Roberto Gomes é um autor com vasta obra, apesar de não ser conhecido e reconhecido como devia. Gosto de suas crônicas, que recomendo inclusive como material para enriquecer as aulas de Portugues (leia-se Literatura), em qualquer momento, mas principalmente quando se trata de jovens moradores de Curitiba, que se identificam(ou podem se identificar) com lugares e personagens, trazendo para perto de si as ricas narrativas deste autor.
Hoje, recebi de uma aluna um texto que será utilizado no estágio, com alunos da sétima série. Achei tão interessante que resolvi colocá-lo em meu blog, para dividir e divulgá-lo.
Aí vai...

Aula de redação
Roberto Gomes

Dia desses meu filho João Marcelo veio com jeito de quem acabou de pensar no assunto, colocou a mão no meu ombro e pediu:
_ Me ajuda a fazer uma redação?
Fiquei espantado. Primeiro, ele não é de pedir ajuda, cuidando de seus assuntos de escola com total independência – de resto, não admite que ninguém meta neles o nariz (o que inclui o meu nariz e o da mãe dele). Segundo, escreve com facilidade, por que estaria me fazendo aquele pedido? Terceiro, e pior de tudo, entrei em pânico com a perspectiva de “escrever uma redação”.
Sempre padeci de calafrios diante de professores de português. Lembro de um – o professor Salles, do Colégio D. Pedro II, em Blumenau -, que havia escrito um livro inteiro sobre as funções do pronome que, com o que nos assombrou ao longo de todo o segundo grau. A redação não me produzia tantos calafrios, mas era um sofrimento arranjar com o que preencher trinta linhas a respeito do “Fim de semana com meus pais” ou “A gota de orvalho”.
Por isso, sempre que posso saio em defesa dos pobres alunos de redação. Escrever, mesmo um bilhete para o vizinho, é uma tarefa solitária, que merece todo o respeito. Já os alunos são obrigados a escrever em público, em meio a uma multidão de carteiras, de olhos curiosos, risinhos de mofa, além do severo e vigilante olhar de águia do professor. É demais.
Depois, servem-se apenas de uma caneta e de uma folha de papel na qual devem depositar tantas linhas. Acho desumano. Eu, que já vou para o décimo segundo livro, escrevo no meu tugúrio, protegido por portas e campainhas, o telefone fora do gancho, armado com vários dicionários, diversas enciclopédias, o corretor ortográfico instalado no computador e, quanto tudo isso falha, saio pela casa ao encalço de minha mulher para fazer a ela, pela milésima vez, a pergunta humilhante, já errando na grafia:
_ Cosinha é com z ou com s?
Não consigo decidir. Há um trauma profundo que me impede fixar de uma vez por todas a grafia de certas palavras, além de algumas concordâncias. Pensei que eu fosse um caso único no planeta dos escritores, mas dia destes li uma crônica do Fernando Sabino confessando ser incapaz, entre outras coisas, de lembrar se pêsames é com z ou com s.
Quando não descubro nos livros a resposta para minhas dúvidas e minha mulher não está em casa, telefono para dois amigos que são craques nesta seara. O João Alfredo Dal’Bello, meu consultor para latim, alemão, italiano e gramatiquices em geral, e o Sírio Possenti, que alcanço lá em Campinas, de onde me salva de minhas asnices, não raro aconselhando que eu mande a gramática cachimbar formiga.
Além de dispor de todo este arsenal, só escrevo quando bem entendo e sobre o que bem entendo, dono absoluto de meu nariz e de meus delírios. Por isso morro de pena dos estudantes obrigados a fazer redação. Sem dicionários, enciclopédias, sem o Sírio Possenti e o João Alfredo, sem o corretor ortográfico do micro, engessados em vinte linhas que devem cobrir com letra legível – ó tormento dos tormentos! – e ideias originais a respeito de um assunto ao qual acabaram de ser apresentados! Pode tortura maior?
Por isso entrei em parafuso quando meu filho me fez o pedido fatal. E agora? E se a ação se passar na cosinha (ou cozinha) e, por alguma razão insondável, for necessário dar pêsames (ou pêzames) a alguém? Como vou explicar ao João Marcelo que, depois de doze livros, nem isso aprendi?
E como vou fazer uma introdução, um desenvolvimento, uma conclusão? Como vou ter certeza de que, num parágrafo, desenvolvi uma ideia completa? E o pronome que? E as regras da próclise e da ênclise? E a ordem direta e a clareza? E a crase, meu Deus, a crase!?
Estou há três dias sofrendo amargamente, rezando para que meu filho esqueça do pedido ou não precise mais de mim. Ontem ele me disse que, antes de começarmos a redação, iria telefonar para uma amiga (a Fernanda, a Bruna, a Manu, não sei). Acabou engatado ao telefone pelas duas horas seguintes, esqueceu de mim, graças a Deus. Hoje, resolveu fazer um hambúrguer, depois começaríamos. Fiquei aqui suando frio. Acabou dizendo que estava cansado, ia dormir. Respirei aliviado.
E amanhã? Que me espera? Além disso, acrescentei uma nova aflição a meus tormentos: o que pensará a professora de nossa redação? Posso vê-la com um imenso lápis vermelho em punho distribuindo bangornadas corretivas em minhas mal traçadas linhas. E, aflito, me imagino nos próximos dias a perguntar ao João Marcelo: que nota tiramos?
Pior ainda: e se a professora ler esta crônica? Acabo reprovado. Meu Deus, nada é mais assustador do que um professor de português! Ó, Senhor, tenha piedade dos escritores e dos pobres alunos obrigados a escrever redações!



BIBLIOGRAFIA:

GOMES, Roberto. Alma de bicho, “Aula de Redação”, Criar Edições, 2000.

Um comentário:

Cecilia disse...

Excelente crônica. Vivo na Suíça, onde a escola, família e filhos trabalham juntos. A idéia da cronica me remete aos meus tempos de escola. Hoje, sou mãe. Ler, nas palavras de Gomes, as angústias do outro lado da moeda, foi emocionante. Obrigada! Vale a pena! Cecilia Senften